NA ESTRADA
Varig! Varig! Varig!
por Virginia Cavendish
10/10/2015

Produzir no Brasil é dose, quem produz sabe das dificuldades. Desde a época de Arthur de Azevedo (1855-1908), que escreveu uma fala belíssima para sua personagem Frazão em “O Mambembe” (1904), que é assim. E parece que a coisa nunca vai melhorar. Toda vez que começo uma produção de teatro me lembro à risca desse texto:

“FRAZÃO (Só) — E levo esta vida há trinta anos! Pedindo hoje... pagando amanhã... tornando a pedir... tornando a pagar... sacando sobre o futuro... contando com o incerto... com a hipótese do ganho... com as alternativas da fortuna... sempre de boa-fé, e sempre receoso de que duvidem de mim, porque sou cômico e ser cômico vem condenado de longe... Mas por que persisto?... por que não fujo à tentação de andar com o meu mambembe às costas, afrontando o fado?... Perguntem às mariposas por que se queimam na luz... perguntem aos cães por que não fogem quando avistam ao longe a carrocinha da prefeitura, mas não perguntem a um empresário de teatro por que não é outra coisa senão empresário de teatro... Isto é uma fatalidade a que nos condena o nosso próprio temperamento. O jogador [é] infeliz porque joga? O fraco bebedor, por que bebe?... Também isto é um vício, e um vício terrível porque ninguém como tal o considera, e, portanto, é confessável, não é uma vergonha, é uma profissão... uma profissão... uma profissão que absorve toda a atividade...toda a energia... todas as forças e para quê?... Qual o resultado de todo este afã? Chegar desamparado e paupérrimo a uma velhice cansada! Aí está o que é ser empresário no Brasil!”.  

Quando produzi “Comendo entre as Refeições”, de Donald Margulies e direção de Walter Lima Jr, com Aracy Balabanian e comigo no elenco, consegui patrocínio apenas para a montagem no Rio de janeiro. Decidi levar a peça para São Paulo sem patrocínio, mas com uma coprodução com o teatro Folha. Viajaria no risco, mas acreditava no potencial do projeto. Estava tudo certo, contrato assinado, tínhamos hotel, alimentação, transporte local e passagem aérea. Tudo produzido por mim já que estava tentando trabalhar com custo zero, sem produtor executivo. Então, era eu com euzinha mesmo. Fui em frente. Três  semanas antes da estreia, a Varig quebrou e a pessoa responsável pelos patrocínios simplesmente sumiu. Uma hora eu estava no almoço, outra hora com a mãe doente, em outro dia tinha ido ao médico, enfim, não consegui falar com o patrocinador de forma alguma. Eu tinha um contrato assinado com a Varig e só precisava emitir as passagens. Comecei a ficar nervosa. Passou uma semana e nada. Nenhuma resposta. Um descaso completo. Faltando apenas alguns dias para viajar para São Paulo, ainda não tinha recebido nenhum retorno. Aí fiquei desesperada. Não acreditava que depois de todo o meu esforço, produzindo a peça sozinha, numa cidade onde não conhecia as pessoas, eu iria amargar um prejuízo gigantesco antes mesmo da estreia. Resolvi ligar para as várias lojas da Varig no Rio de Janeiro. Era uma sexta-feira. A Loja de Ipanema já tinha fechado. Liguei para a de Copacabana. Uma moça me atendeu, expliquei meu caso e ela falou – “Passa aqui e a gente vê o que pode fazer”. Quando cheguei lá o clima era de grande tensão. Todos daquela loja, ao final do dia, saberiam de seus destinos profissionais. Todo mundo trabalhava em silêncio. Tinha muita gente lá com anos de Varig, com anos de profissão. Estávamos eu e eles no mesmo barco. Uma mulher me atendeu, ela estava com uma cópia do meu contrato e disse: “Vou lhe dar o seu crédito, imprima todas as suas passagens por que eu não sei o que vai acontecer com a empresa daqui até o final do dia”. Agradeci de todo o coração e fui imprimir tudo. Como eram muitas passagens fiquei sendo a última cliente da loja. Estava presente quando chegou a notícia de que a loja fecharia naquela noite e que todos os funcionários não teriam mais seus empregos. Graças a uma pessoa generosa e de boa fé, mesmo com toda aquela situação, consegui as passagens aéreas para minha temporada em São Paulo. À surdina, meu namorado comprou um champanhe e, com a loja já fechada, brindamos, com muita esperança, ao futuro de cada um de nós.

2008.

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