NA ESTRADA
Salário Susi
por Virginia Cavendish
08/12/2015

Meu primeiro contato com o teatro se deu quando eu tinha seis anos. Foi no espetáculo “Esta Noite se Improvisa”, de Pirandello, onde minha mãe fazia uma personagem em meados da década de setenta, onde grupos teatrais jorravam Brasil afora. Minha irmã também fazia uma participação no espetáculo e eu ia a reboque por não ter com quem ficar em casa. 

A cada ensaio, cada encontro, aumentava minha vontade de participar daquela brincadeira. Foi aí que começou a minha primeira e definitiva batalha por uma personagem. Eu pedia, pedia, pedia, pedia todos os dias à minha mãe para também participar daquilo… mas só tinha uma personagem criança na estória. Minha mãe pedia ao diretor para me colocar na peça e nada. Passaram- se semanas e nada… Mas a insistência foi tanta que um dia o diretor cedeu e inventaram uma irmã para o personagem que minha irmã fazia. Lembro-me desse dia como a primeira conquista de uma coisa muito desejada. Uma imensa felicidade. Foi impossível falar, agradecer. Saí correndo pelos corredores da  TV Universitária, onde aconteciam os ensaios. Tudo que sentia era imenso demais para ficar parada, eu tinha que correr, correr, correr...

No final, minha mãe não estreou a peça, com vergonha de representar uma moça que trabalha num cabaré. Ficamos eu e minha irmã. Aos seis anos, com minha pequena vidinha  passando por um caos de pais se separando, brigas sem fim, sem a possibilidade de entender tudo aquilo... Encontrei no escuro e no silêncio da coxia um lugar onde tudo era calmo, concentrado. As pessoas estavam ligadas umas nas outras com um fio invisível que fazia tudo funcionar. Lá, tinha pastel de nata da Candy aos montes! E o meu salário foi uma Susi! Depois dessa peça não fiz mais nada e fui viver a vida de uma criança comum. Escola, rua, amigos, rua, amigos, escolha… Dez anos depois, aos dezesseis anos, voltei a pensar em teatro e pedi novamente à minha mãe para me indicar um curso.

De lá para cá tenho trabalhado o tempo inteiro como atriz e também produtora. Viajo com minhas peças e filmes pelo Brasil. De certa forma sigo a tradição do Mambembe: gosto de juntar família e amigos no meu trabalho. E assim estou sempre me divertindo.

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